domingo, 29 de junho de 2008

Pequena Publicação Medíocre das Relações Humanas e do Desaparecimento dos Seres Alheios ou, simplesmente, O Sumiço


Olha essa parede, esse vão branco

Olha esses dedos de cetim

Olha para menina no assoalho

Vertendo lágrimas sem fim

Ela a vaporosa dama alva

Os olhos esmeraldas afiadas

Murchando nas teias invisíveis

Das belezas namoradas

Ela olha a primavera vindo em cânticos

Os seus joelhos a nos tocar

Sentindo na pele o mundo aos poucos

Fazer a meia volta e flutuar

E porque continuas encolhida

Na avenida de minha vida?

A sua voz ecoa livre

Mas suas pernas estão presas no ar

Volve a noite minha querida

Seu coração em feridas está

Volve o dia e a menina

Que ali jazia

Não há

Desapareceu na sombra do medo de amar

domingo, 8 de junho de 2008

A violinista tem os pés descalços.


O vento arrefecia o azul das sapatilhas de seda e envolvia com seus fios invisíveis o vestido rendado da violinista, movimentando-o no suave embalo das brisas ancestrais. Em seu braço esquerdo sustentava ela seu instrumento e seus acordes sonolentos na manhã orvalhada. Com o braço direito, sustenta a vida na delicadeza de uma folha verde já levemente corroída pela ação das intempéries. E ela, a violinista, era sustentada pelo tempo nas horas divagadas.

Quando seus olhos abriram para a imensidão da planície ela viu, cheia de inquietude permanente, a diferenciação das coisas e suas infinitudes, os rebuscados simplismos da natureza nua. As inconsistências concretas, a beleza do grotesco e o grotesco da beleza. O avesso das coisas em seus avessos mais revirados. E ela ao avesso com a incompreensão do mundo. Ela a violinista, acabara de tomar ciência de sua existência fatídica na resposta monossilábica da planície. E nessa resposta, quebrou-se em cacos a máscara de mulher in persona e a violinista tornou-se ela mesma.

Soltou-se o violino e a folha, cintilou a gota que armazenara silenciosa na mão alheia. E na terra ela foi bebida com o sabor ambrosíaco pelas raízes das árvores. Tão singelo quanto respirar. A violinista agora sem amparos corria em direção ao riacho com os cabelos castanhos e despenteados a revolutear na nuca perfeita. Toda ela na sua música, no seu som, no seu ritmo. Tudo em um só instante que se transpassado duraria anos. Tudo para um salto onde as sapatilhas se desprenderiam da (in)sanidade momentânea e permaneceriam na grama úmida. Tudo para o salto da violinista. Tudo para os pés tocarem a superfície calma e estável da água. O caminho percorrido como que sem percalços. A felicidade liquefeita em redemoinhos de paz.

A violinista tem os pés descalços.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

As Trouxas.

Cada qual com seu fardo, cada palavra com seu peso.

Mais de duas horas faziam desde que a intrusa se acomodara no canto da sala manifestando uma tranqüilidade atroz, contrária à sua natureza imunda, corroída e naftalínica. Chegou na aspereza da noite sem ser convidada e assentou-se no canto exalando as perplexidades dos olhares dos outros. Ela, emanada da irmã louca, trazida sem conseqüências avaliadas, carregada como o despudor sem escrúpulos. As desculpas para trazer-lhe àquela hora da noite foram insuficientes e incompletas. Havia a água, havia os produtos, e havia as mãos: mas havia um cansaço, egoísta, egocêntrico, que não enxerga além do próprio pêlo escuro, e a insensatez, mas desta não se fala em voz alta, pois ela persegue seus invocadores. Por isso silenciemos, assim como a anfitriã.

Nesse meio tempo, as roupas apodreciam na plasticidade azul.

Fora-se a irmã, ficara a intrusa e seus odores de mulheres. Ficara o flagelo corrompido que mesmo tão ébrio de si mesmo e imploroso ainda possuía um tom sarcástico que a anfitriã não queria reconhecer. Um olhar que ela sentia desde que fora morar com a velha. E desde esse dia ela não era mais ela mesma.

E ela senta-se.

Dois olhos fatigados sentados no sofá e dois botões de ametista a cintilar por detrás do plástico: todos em igualitária correspondência, reciprocidades que não cabem em linhas. Os olhos, assim como as roupas, imploravam sedentos por água. As roupas, assim como os olhos, exalavam o cheiro de um dia no corpo de outrem.

As duas mortas vivendo de olhos abertos, mortas nos corpos dos outros, mortas nos cheiros nos amassos, nos rasgões e na ausência de traços característicos na carne de seda e nos fiapos. Ambas se observando mutuamente. Um momento ela teria de levantar, um momento deveria pegar os olhos de ametista e liberta-los de seu cárcere asfixiante, um momento ela deveria fazer o que a outra não fizera em sua estadia ridiculamente frustrante. Ela, a anfitriã, quando ela o fizesse, estaria livre de um fardo, e preso a outro. Facas de dois gumes. E o fio de sangue já corria.

E agora ali, na escuridão da noite, antes do som das revoluções liquidas, não havia mais uma mulher, nem ali mais uma roupa. Eram ambas trouxas: uma em seu amontoado, outra em sua ingenuidade.

sábado, 31 de maio de 2008

Lembrança

Vejo o tempo em suas tranças infinitas plantando suas raízes na terra úmida das horas que nunca descarrilam e só se acumulam na estação de mim. Vejo o tempo engendrar olhos e ouvidos na superfície orvalhada e reproduzir o som da persistência do nada, continuamente até que se ouçam internos os sons que ora lá fora habitavam. E nesse momento, o tempo produz o silêncio em demasia. E o silêncio atravessa as barreiras do som e penetra nas paredes auditivas como o desconforto da ausência persistindo. E a ausência se faz presente na visibilidade do tempo ocupando seus espaços

Eu tenho o tempo presente nas cobertas e mantas com o cheiro da minha eternidade momentânea. Tenho o tempo na poeira que já fora tua e nas teias que já foram ar. Nas paredes hoje nuas e na corrente de prata da cama. Eu, que tenho o tempo presente na seda dos pulsos. E o tempo, todo ele se ri, hilário e sarcástico, hipócrita de meus olhos. Eu que não sabia que ao tempo se deviam ofertar os mesmo júbilos que se ofertam à deus.

Nesses instantes o tempo pára e me olha. E nesses instantes eu percebo: o tempo sou eu. E como o tempo eu retorno, vivo e radiante, para a estrela vespertina, para a saudade constante, antes que eu, o tempo, me desfaça de mim.E isso, até que o dia seguinte venha. Talvez, pelo menos, até que o dia seguinte venha.E ele sempre vem. Mesmo que frio e com o peso das horas.


quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ode às coisas incomensuráveis

Se a saudade é tormento, é o tormento que me afaga e me apaga o desprazer da tua falta que a palavra assim não satisfaz. De mim já se foram a tempos os pretextos e o pressentimento, incorreto ou só concreto, de te ter toda tamanha a força da tua paz.Faz de mim um soberano sem saber sem sobretudos nem cobertas todo mudo e a todas horas num minuto a incerteza do regresso, como fostes capaz de abandonar ao verso esse pobre rapaz que te versa a toda hora e a todo olhar se esvai na sombra de um sonho inquebrantável que se desfez em um pedaço só de solidão. Tão sozinho que permanecido na inexatidão permanceu. Só. Somente só.

sábado, 10 de maio de 2008

Another day close to paradise

Um copo de melancolia suava na manhã gelada e as gotas sussurravam lá fora que seria inútil fechar as janelas: a tempestade era interna.

Talvez por isso ela tenha deixado a porta aberta, os trincos frouxos as janelas exaltadas na penumbra da noite anterior. Não importava quantas tormentas entrassem, mais haviam de sair. E quanto mais saíssem mais a casa seria o vazio auto-suficiente que ela esperava.

Mas nunca ela se esvaziava. Por mais móveis brancos, por mais cortinas limpas, por mais pisos mármore puro como cocaína e cocaína pura como olhos encharcados. Por mais que ela estivesse seca. Ainda persistia a mancha dela mesma naquele lugar sagrado que ela reservara para si e que consigo mesma tornava-se impuro e irrespirável. Ela era sua própria mancha negra. Ela e aqueles pés imundos, e aqueles joelhos escurecidos e aquelas mãos secas. Tão secas. Seca como um deserto que ela fosse obrigada a carregar no paradoxo das chuvas.

Fora isso ainda tinha aquela boca. A maldita. Inútil aquela boca. Minúscula como um grão mostarda, insípida, frustrada, pálida, odiável e, simplesmente... inútil. Toda ela, os dentes a língua as abóbadas celestes que revestem essa horribilidade fatigante de céu. Tudo que ela desejava é que ela explodisse em reviravoltas de luz e se reproduzissem estrondos vermelhos e rios de seiva de seus lábios e ela tivesse seus arrebóis contínuos, espontâneos e irreprimíveis. E como ela queria... Mas não se dá em árvore infrutífera o desabrochar de qualquer tipo de flor olorosa. E dolorosa ela persistiu na inquietude que é o conformismo pela qual não queria passar.

E nas chaves de prata reluzentes na mesa de mogno refletia-se o seu rosto estranhamente deformado. A disformidade das chaves lhe dava a perspectiva certa de seu projeto, de seu protótipo de mulher que queria para si apenas a possibilidade de morar consigo mesma dentro das mesmas paredes internas. Ela era toda o desejo de seu reflexo nas chaves. Chaves finas e agudas como a ponta de um alfinete refletindo o divindade que queria possuir.

Quantos anjos podem dançar na ponta de um alfinete? Perguntava-se enquanto via um reflexo que era o seu mas não era o seu era de outra que ela queria que fosse ela respirasse nela e sentisse nela entrasse e se instalasse em suas entranhas profundamente e a aliviasse. Uma acupuntura de agulhas humanas em veias humanas em pele humana. Ela só queria ser humana. Sendo humana poderia possuir tudo que estava ao seu redor, inclusive seu mármore, suas cortinas, seus desejos, seus vícios, si mesma.

Um toque na campainha.

O reflexo se torna um espiral de cacos que se revoluteiam caoticamente, um tornado cortante e lascivo que lhe escapole à mente deixando um buraco enorme e sangrento.

Suas mãos antes secas suam e os cremes formam um lamaçal de estética fluída que pinga no tapete de pele de urso polar. E seus olhos tornaram enormes e saltaram às órbitas e ela viu eles próprios e viu que tornara seu cômodo sagrado impuro.

Aquela gota imunda desceu ao solo sagrado e ela via a escuridão se apoderando daquele ambiente repentinamente e ela se asfixiou naquela impureza dela mesma. Correu para as escadas tentando o andar superior. Talvez a impureza poupe as escadas e o mármore. Mas a impureza de si mesma não é como qualquer outra. Ela não fica estanque, ela persegue o dono como uma tentativa de restituir-se ao seu corpo. Torna ao impuro o que é impuro. As escadas, os tapetes, a porta do quarto, os pés da cama, o parapeito da janela. Tudo impuro e ela havia se alastrando e amaldiçoando tudo.

Naquele instante, no parapeito da janela, ela viu um clarão . Serpentes flamejantes em forma de fios elétricos revolucionam as ruas lá embaixo. E ela vê, pela primeira vez, a luz. Aquilo que ela ansiava se oferecendo lasciva na sua frente, irredutível, convidativa. Os pés apoiaram-se no parapeito e ela respirou fundo como se fosse sentir aromas ínfimos. O odor da luz pura. O cheiro de sua essência em fios luminosos. Ela em fios luminosos. Sentindo o vento as frases e as incompreensões do mundo. E o mundo em luz só para ela. Tudo é luz até os sons. E os sons são campainhas que desfazem em cacos os vasos de violetas sem alma.

E ela?

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A declaração de Olivia O.

Eu quero conter um pouco mais de mim

E dentro de mim encontro um querer incontível

E incontrolável eu desagüei em ti

Todos os quereres que me constavam irreprimíveis


E incontáveis vezes eu encontro o inesperado

E desse embate surgem as mais lindas tristezas

Configuradas no sorriso inalável

Que interpretas com a inconsistência de copos-de-leite


Mas na conscientização do feito este se torna inalienável

E inerte permaneço aos seus olhos de vidro

E imóveis eles fixam os meus, inexatos, invertidos

E incompreendida eu me identifico, vertida em vazios espirais.


As ruínas recém construídas se cobrem do verde solitário

Jazem meus quereres em seu leito de pedra

Piedade.